O MITO da Esquizofrenia
- Francisco Capelo

- 16 hours ago
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O MITO da esquizofrenia
1. Enquadramento:
A. Psiquiatria:
A esquizofrenia é um transtorno mental crónico e complexo que afecta a forma como uma pessoa pensa, sente e se comporta. Caracteriza-se pela perda de contacto com a realidade, que se manifesta através de delírios e alucinações, e interfere nas relações sociais e na capacidade de funcionar no dia a dia. Apesar de não ter cura, é uma condição tratável, e muitas pessoas conseguem ter uma vida plena com o tratamento e apoio adequados.
B. Anti- Psiquiatria:
O diagnóstico de “esquizofrenia” converteu-se num diagnóstico de comodidade, num rótulo válido para justificar os múltiplos casos que parecem obscuros e sem possibilidade de ser classificados de forma mais precisa. Diagnóstico do tipo de esquizofrenia, reacção esquizofrénica, reacção psicótica, crise psicótica da adolescência, etc, carecem de uma base científica válida.
C. Xamanismo:
A opinião de Lommel (1960) sobre a perturbação mental do xamã do Paleolítico como estímulo necessário para a criatividade artística foi um passo significativo para a “Nova Era”, em que o xamã é considerado possivelmente como a mais sã das pessoas. O patológico e ineficaz xamã do passado tornou-se actualmente um criador cheio de imaginação. O paralelo mais próximo para a loucura do xamã será talvez o estado clinicamente designado por esquizofrenia. Um ataque esquizofrénico consegue mergulhar uma pessoa em terrores comparáveis à visão da iniciação de um ou uma xamã siberiana, quando a sua personalidade se desintegra de modo semelhante. Todavia, as diferenças são bastante grandes, tanto psicológica como socialmente.
O xamanismo é uma forma não dogmática de espiritualidade, que proporciona uma grande margem de criatividade pessoal. O xamã liga entre si áreas como a religião, a psicologia, a medicina e a teologia, que, na literatura ocidental, se encontram separadas. Através das suas experiências individuais, os meios do xamã são psicológicos, mas os fins são sociológicos, para sarar e manter a comunidade. Quer nas regiões da Amazónia, em que muitos elementos da população são xamãs, quer na Sibéria, onde o xamanismo é uma vocação rara e poderosa, o xamã é sempre uma pessoa que possui uma experiência e poderes extraordinários. A personalidade xamânica é moldada pela cultura e os xamãs são “loucos” por cortesia e nos termos dessa mesma cultura. Em último caso, é a sociedade que distingue entre o comportamento do xamã e o do esquizofrénico ou do psicótico. Um transforma-se em herói e o outro em paciente de um hospital. O xamã vive à beira de um abismo, mas tem forma de evitar cair nele.
. 1ª Conclusão:
Dá-se claramente um enfoque no desequilíbrio individual, sendo a origem social desse desequilíbrio (proposto pela Anti- Psiquiatria) abafada; e finalmente há uma generalização (abusiva) da “doença” mental a toda a população. Não ocorreu a uma séride de terapeutas algo apressados que a causa primeira deste desequilíbrio constitui, isso sim, uma reacção alérgica (faseada) às expectativas sociais/ familiares + medicação, sendo que tal evento expressa uma escala de valores humanos invertida: sendo assim, a passagem de mera leve depressão ao estado mais perturbador de esquizofrenia é totalmente previsível/ frequente – não é uma questão de “se”, mas “quando”…
2. Sintomas:
A. Psiquiatria:
Os sintomas da esquizofrenia dividem-se em três categorias principais:
Sintomas positivos: São comportamentos e pensamentos que surgem com a doença. Incluem:
. Alucinações: percepções sensoriais irreais, como ouvir vozes ou ver coisas que não existem. As alucinações auditivas são as mais comuns;
. Delírios: crenças falsas e irracionais, como a paranóia, em que a pessoa se sente perseguida ou controlada;
. Pensamento e discurso desorganizados: dificuldade em organizar os pensamentos, resultando num discurso incoerente e pouco compreensível.
Sintomas negativos: Correspondem à perda ou diminuição de comportamentos e emoções normais, incluindo:
. Embotamento emocional: redução da expressão de emoções no rosto e na voz;
. Apatia: falta de motivação e de prazer nas atividades diárias (anedonia);
. Isolamento social: afastamento do contacto com outras pessoas.
Sintomas cognitivos: Afetam a capacidade mental e incluem:
. Problemas de atenção e de memória.
. Dificuldade em planear e organizar tarefas.
B. Anti- Psiquiatria:
Quando se fala de loucura é difícil manter uma atitude científica, já que o conceito é practicamente impossível de encaixar dentro do campo dos conceitos objectivos. A esquizofrenia foi a condição pessoal de um bom número de artistas e o tema central de muitas obras literárias e cinematográficas. A actividade pictórica realizada sob a influência do LSD resulta muito semelhante à de alguns doentes esquizofrénicos.
A barreira estabelecida entre o manicómio e a sociedade, entre a anormalidade e a normalidade, é mais teórica do que real. Estamos a viver um momento em que se tende a complicar a explicação dos factos, produzem-se análises complicadíssimas – destinadas a grupos de elite – sobre situações simples, porque a complicação está ao serviço da confusão e esta, por sua vez, é uma arma de dominação.
Na agressividade do doente influía muito a forma como era tratado; isto é a sua violência era uma reacção em grande parte reflexa, uma atitude reactiva face à ameaça do meio do manicómio.
C. Xamanismo:
Os Xamãs têm sido considerados loucos, foram perseguidos através dos tempos. Tremores, arrepios, pele de galinha, desmaio, queda no chão, espuma pela boca, olhos protuberantes, insensibilidade ao calor, ao frio e à dor, tiques, respiração ruidosa, olhar vidrado, são algumas das características do estado de transe. Como é possível que este tipo de comportamento represente sinais de um estado divino?
A iniciação não é necessariamente violenta. Na América do Norte, na busca da visão – que constitui um rito de passagem essencial nas vidas de muitos dos povos das planícies - , o caso típico é um rapaz dirigir-se a um sito ermo para jejuar e orar durante alguns dias, a fim de adquirir um espírito guardião, espírito esse que muitas vezes é um animal.
Enquanto a atenção do xamã aumenta, a do esquizofrénico encontra-se difusa; enquanto o xamã mantém um controlo de longo alcance sobre o seu próprio estado de espírito, a esquizofrenia determina a perda deste controlo; e, enquanto a experiência do xamã é sempre trazida de volta à sociedade e partilhada para benefício dela, o esquizofrénico está retido no interior da sua experiência privada, quase ao ponto do autismo. A força mental do xamã deriva de uma experiência expandida de distúrbio mental. A iniciação é uma desintegração controlada sempre seguida por uma re- integração em algo de mais poderoso e completo.
Certos tipos de estimulação do organismo dão origem à produção de substâncias específicas chamadas endorfinas: a sua função na indução de estados xamânicos de consciência e na produção de actos de resistência física continua por esclarecer. Não explicam de modo algum o conteúdo ou o tom essencial da experiência do xamã. Os neo- xamanistas interpretam o “estado alterado de consciência” como um potencial humano universal, apenas parcialmente realizado em qualquer cultura tradicional. Em muitas partes do mundo, o xamã passa por uma morte simbólica durante a iniciação, a que se segue a ressurreição. Qualquer que seja o modo como as pessoas de fora consideram o estado mental do xamã, as sociedades xamânicas vêem uma continuidade entre este estado e o do paciente e da sociedade, considerados como um todo. A ideia de que a sabedoria envolve uma qualquer espécie de 2ª visão, ou visão interior, está muito divulgada entre as culturas xamânicas.
. 2ª Conclusão:
O facto de os sintomas de esquizofrenia serem quase iguais em todos os casos devia levar-.nos a questionar a validade do diagnóstico individual da “doença” – no entanto e pelo contrário o que acontece é a generalização de um diagnóstico inicial totalmente errado, focado em sintomas que se assemelham, mas cuja posterior lógica terapêutica não existe. Diga-se ainda que o sintoma de “ouvir vozes” será causado, quase de certeza, por uma divisão da personalidade, que dá recados” ao paciente sobre como se comportar, em múltiplos aspectos da sua vida social. Neste sentido, dá-se uma ilusão auditiva, mas cujo som não existe.
3. Causas:
A. Psiquiatria:
A causa exata não é totalmente conhecida, mas acredita-se que seja resultado de uma combinação de fatores:
. Genética: A esquizofrenia tende a ser hereditária, com um risco acrescido em pessoas com familiares diretos que a tenham;
. Factores ambientais: Eventos stressantes, traumas na infância, stress crónico e o uso de drogas (como a canábis) podem atuar como desencadeadores em indivíduos predispostos;
. Neuroquímicos: Ocorrem alterações nos neurotransmissores cerebrais, especialmente a dopamina, o que explica muitos dos sintomas;
. Disfunções cerebrais: Estudos indicam que há diferenças na neuro circuitaria e diminuição da massa encefálica em pessoas com esquizofrenia.
B. Anti- Psiquiatria:
A concepção da alienação como um produto de origem social e familiar é a principal característica do movimento actual que se conhece com o nome da antipsiquiatria. David Cooper insistiu que a violência, em psiquiatria, é introduzida pelo sistema assistencial, desde as correntes à camisa de forças ou à administração de grandes doses de psicofármacos agressivos.
Para Laing, um esquizofrénico é um ser supersensível e privilegiado, capaz de captar a loucura do ambiente. A consideração da família como a unidade esquizofrénica básica é, sem dúvida, um dos contributos mais originais deste autor. Quando a psiquiatria ortodoxa põe a etiqueta de esquizofrenia sobre a vítima expiatória da família através de uma cerimónia de degradação que é a admissão num hospital psiquiátrico, inaugura assim a vida de um novo doente mental. Em cada uma das manifestações psicóticas existe uma tentativa de comunicação entre o doente e o mundo que o rodeia, feito numa linguagem cuja descodificação é quase sempre simples. Há que elaborar uma autêntica semiologia da vida familiar, que tem tanto de psiquiatria como de poesia.
Citação de Christian Delacampagne – “Não existem doenças mentais; só existem doenças sociais. A loucura acontece entre homens, ou seja, na sociedade. E a psiquiatria inventou o conceito de doença mental para cobrir a verdade. E a psiquiatria, por sua vez, foi inventada para servir a ordem social interessada em tal encobrimento: a ordem burguesa. É intolerável dizer que a vida é intolerável… por isso se aprisiona num asilo quem o diz. Por medo de contágio. É isso…”.
C. Xamanismo:
Há semelhanças espantosas entre as ideias e as práticas xamânicas de regiões geograficamente distantes, em sociedades que muito provavelmente nunca tiveram qualquer espécie de contacto. A sociedade xamânica apresenta ainda uma visão de relações baseadas na intimidade de comunidades de pequena escala, contradizendo a despersonalização e fragmentação das sociedades sem raízes das grandes urbes. Ser xamã será de facto a mais velha das profissões, ao exercerem-se as funções que, numa sociedade industrial, são desempenhadas separadamente pelo médico, pelo psicoterapeuta, pelo soldado, pelo adivinho, pelo sacerdote e pelo político. O xamã trabalha em sociedade com os espíritos; e a maioria das tradições salienta que são os próprios espíritos que escolhem quem é que se vai tornar xamã. Os xamãs são figuras centrais das sociedades a que pertencem.
As descobertas paleolíticas do século XX abriram o caminho a interpretações que tornaram o xamã a figura principal na busca das origens da religião.
. 3ª Conclusão:
Para a Psiquiatria tradicional, a causa da doença mental é o mau funcionamento da mente individual; para a anti- Psiquiatria é a família/ sociedade; e no caso do xamanismo não há doença, ocorrendo apenas uma confusão entre vocação xamânica e doença mental. No meio destas perspectivas totalmente discordantes estará ainda alguma virtude…?
4. Diagnóstico:
A. Psiquiatria:
O diagnóstico é feito por um psiquiatra, que avalia os sintomas, a sua duração e o impacto na vida do paciente. Para confirmar o diagnóstico, os sintomas devem persistir por um determinado período de tempo, tipicamente pelo menos um mês, com prejuízos funcionais que durem no mínimo seis meses. É fundamental descartar outras causas, como o uso de substâncias ou outros problemas médicos.
- Importante: a esquizofrenia é frequentemente estigmatizada. No entanto, é um mito que as pessoas com esta condição sejam violentas; a maioria é, na verdade, mais reservada e menos propensa à agressividade do que a população em geral. Com o tratamento e acompanhamento adequados, é possível levar uma vida funcional e com qualidade.
B. Anti- Psiquiatria:
O desenho não tem apenas um valor de diagnóstico: o doente mental que desenha tem uma oportunidade, quase nunca recusada, de organizar simbolicamente o seu caótico mundo interior. O problema da doença mental é que o terapeuta procura catalogar o paciente segundo as doenças mais complexas e a partir daí conclui se o doente está mais ou menos doente; este equívoco confunde o aspecto burocrático da doença com a necessidade que está expressa. É assim um problema de linguagem técnica, que através de jargão pseudo- científico torna mais complexo o fenómeno mas nada diz sobre a necessidade do paciente.
C. Xamanismo:
O xamã é um neurótico e um psicopata; ou o xamã é a pessoa mais sã da sociedade, profundamente sensível ao temperamento dos outros?; o xamã é um exibicionista, um conspirador e um charlatão?
Alguns psicanalistas interpretam a iniciação e o transe xamânico como uma regressão infantil. O xamã não sofre de desdobramento de personalidades no sentido psicótico da doença, porquanto as personalidades múltiplas implicam um mundo de fantasias privadas incompatível com as preocupações do xamã com a comunidade em geral. A iniciação ou busca de visões e a manutenção de relações com os espíritos auxiliares envolve os xamãs em longos períodos de solidão. Tanto os xamãs como os budistas e os iogues, todos eles entram num mesmo estado de consciência, e, tal como a consciência xamânica se confundia anteriormente com estados patológicos do tipo da esquizofrenia, também agora se confunde com os estados de consciência iogues e de meditação. Na Grécia antiga, a poesia, a música e as artes eram consideradas ofertas das musas, deusas de cujo nome derivou a palavra “música”.
Na visão xamânica do mundo todas as coisas (animais, plantas, rochas, vento e chuva) possuem espírito próprio. A técnica fundamental da viagem xamânica é um estado de transe controlado.
. 4ª Conclusão:
Podemos sem grande margem de erro substituir o diagnóstico falso de “doença” mental por uma constatação simples: o afastamento do indivíduo na sociedade de serviços – que é a nossa – da sua própria criatividade produz este desequilíbrio, que é hoje em dia endémico: hoje todos nós somos “projectos” de esquizofrenia em andamento, cuja vida está prestes a desabar…
5. Tratamento:
A. Psiquiatria:
Embora não haja cura, o tratamento adequado permite controlar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. Geralmente, envolve uma abordagem multidisciplinar, incluindo:
. Medicação antipsicótica: é a base do tratamento e atua no controlo dos delírios e alucinações;
. Psicoterapia: ajuda os pacientes a gerir a doença, a lidar com os sintomas e a melhorar as suas relações e competências sociais;
. Reabilitação e suporte social: apoiam o paciente na reintegração na sociedade, no trabalho ou nos estudos, e na gestão das tarefas diárias;
. Apoio familiar: a educação e o apoio à família são essenciais para uma melhor compreensão da doença e para o bem-estar do paciente.
B. Anti- Psiquiatria:
Submeter um doente a um tratamento psico- farmacológico é um ataque à sua personalidade e os efeitos secundários constituem para eles autênticas agressões: por isso, uma premissa básica da antipsiquiatria é a suspensão do tratamento farmacológico. Thomas Szasz defende que a psiquiatria só se salvará quando encontrar a linguagem adequada: o psiquiatra fala ao paciente numa linguagem que ele não entende. A terapêutica que se fundamenta na expressão corporal no espaço ajuda o doente a restaurar o seu imperfeito sentido da realidade, perda da sua capacidade de contacto e sensibilidade, de relação e solidariedade com o seu próprio corpo.
A actividade artística criadora é sugerida ao doente com uma finalidade terapêutica. O centro de Kingsley Hall foi uma instituição essencial que desenvolver seminários de psiquiatria, sociologia, métodos de cura; praticava-se a pintura, dança e teatro como meios de recuperação, o que relembra outra instituição revolucionária – a Bauhaus.
A recuperação do doente mental é importante não como um fim em si mesmo, mas na medida em que pode voltar a ocupar o seu emprego num sistema económico que o domina. A psiquiatria assume este dever de devolver o homem à normalidade, sendo que deve obedecer à organização social que faz passar por natural a divisão dos homens em classes sociais. Maud Mannoni sustenta que já é tempo de a sociedade deixar de se defender do “louco” e que a missão do psiquiatra nestes momentos é defendê-lo da sociedade. A “jogada” estabelece-se assim: meio alienante, psiquiatra cúmplice, doente manipulado sob a capa do procedimento terapêutico. A violência do hospício tem um resultado previsível: o de aumentar a atitude violenta dos doentes, o que vai permitir a manutenção e certeza do diagnóstico e a aplicação de mais violência – é um círculo vicioso que se auto- alimenta. A psiquiatria actual aconselha o regime ambulatório, ou seja, manter o doente no seu ambiente habitual, sem abandonar a família, os amigos ou sequer o trabalho.
As pinturas da doente mental Mary Barnes, feitos com os seus próprios excrementos, levantam inúmeras questões, tanto à psiquiatria como no campo da arte contemporânea: “Passar pela loucura é uma purificação que me aproximou de Deus; quero chegar à total integridade – à santidade”.
Diga-se ainda que muitos investigadores - incluindo o próprio Freud - duvidavam da eficácia terapêutica da psicanálise.
C. Xamanismo:
A cura xamânica compreenderá um diálogo entre o paciente e a outra pessoa – o xamã ou um espírito. Isto chega a pontos extremos no xamanismo sora, mas está igualmente presente na psicanálise, que é também uma “cura através da conversa”. O paciente sora conversa com os mortos através de um especialista, enquanto o paciente de um psicanalista fala com o especialista sobre outras personalidades, no momento ausentes da vida do paciente.
. 5ª/ Última Conclusão:
Podemos apontar várias “causas últimas” da doença mental. Uma possibilidade é a reacção do paciente à medicação agressiva, inquinando toda a sua relação com o/ a psicoterapeuta. Mas talvez a explicação seja mais fácil e esteja diante de nós: o adiamento constante da vocação artística/ literária e também a aparente oposição entre a alma e o corpo produzem muito provavelmente os “monstros da razão” de que Goya nos lembrava de facto existirem…






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